Afinal, por que alguém resolve gastar dinheiro
com coisas que não vai usar? Por que é preciso possuí-las, e não só saber que
elas existem? Apesar de não colecionar objetos, o historiador alemão Philipp
Blom coleciona teorias para explicar essa mania. Seu livro Ter e Manter: Uma
História Íntima de Colecionadores e Coleções é um álbum de histórias grotescas
e engraçadas dos primeiros e maiores colecionadores. Para Blom, o hábito de
juntar quinquilharias tem justificativas históricas, filosóficas e psicológicas
- todas tratam o colecionismo como algo mais que um simples passatempo de
adolescentes. Tem a ver com sentimento de grupo, competição, medos, fracassos,
desejos não realizados, vontade de se isolar num mundo e ser capaz de
comandá-lo. Colecionar, para ele, também é uma tentativa de escapar da morte.
"Um mundo diferente, mais significativo,
mais ordenado, pode nos falar a partir de coisas humildes, como sapatos ou
garrafas, autógrafos ou primeiras edições, os quais, em seu agradável arranjo,
em sua estrutura e variedade, nos falam da beleza, da segurança; e cada objeto
que tanto desejamos é, de fato, um atributo daquilo que desejamos", diz o
historiador. Ou seja: coleções ajudam a nos livrarmos da impotência de não
coordenarmos inteiramente nem mesmo a nossa vida.
Mas não pense que todo colecionador é um
sujeito mal-amado, reprimido, solitário. Colecionar quando criança tem lá suas
vantagens. Ensina-nos a organizar e controlar as coisas, decidir a vida e a
morte de cada objeto. Eis uma boa forma de aprender a tomar decisões e a lidar
com o mundo exterior. Colecionar quando criança também funciona como um jeito
de se abrir para relações íntimas. "É por isso que muitas crianças param
de colecionar na puberdade, quando o sexo passa a ser um novo caminho para se
relacionar com o mundo e as coleções são substituídas por pessoas, tratadas com
a mesma importância e intimidade", afirma o historiador Blom.
Quem passa da adolescência e continua
colecionando pode ter sido fisgado pelo saudosismo. Muitos colecionadores
voltam ao hábito depois de adultos para reviver o tempo que jogavam bafo com o
vizinho ou iam de mãos dadas com o pai comprar brinquedos. "Virei
colecionador por saudades", conta o ítalo-brasileiro Antonio Apuzzo, dono
de 6.750 carrinhos de brinquedo, que lhe valeram uma participação no Livro Guinness
dos Recordes de 1997 como o maior colecionador de miniaturas do mundo.
"Gosto muito de lembrar que ia com meu pai para o centro da cidade comprar
os carrinhos", diz ele, que precisa de três cômodos de sua casa para
guardar os brinquedos.
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