quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Nós colecionamos...

Afinal, por que alguém resolve gastar dinheiro com coisas que não vai usar? Por que é preciso possuí-las, e não só saber que elas existem? Apesar de não colecionar objetos, o historiador alemão Philipp Blom coleciona teorias para explicar essa mania. Seu livro Ter e Manter: Uma História Íntima de Colecionadores e Coleções é um álbum de histórias grotescas e engraçadas dos primeiros e maiores colecionadores. Para Blom, o hábito de juntar quinquilharias tem justificativas históricas, filosóficas e psicológicas - todas tratam o colecionismo como algo mais que um simples passatempo de adolescentes. Tem a ver com sentimento de grupo, competição, medos, fracassos, desejos não realizados, vontade de se isolar num mundo e ser capaz de comandá-lo. Colecionar, para ele, também é uma tentativa de escapar da morte.

"Um mundo diferente, mais significativo, mais ordenado, pode nos falar a partir de coisas humildes, como sapatos ou garrafas, autógrafos ou primeiras edições, os quais, em seu agradável arranjo, em sua estrutura e variedade, nos falam da beleza, da segurança; e cada objeto que tanto desejamos é, de fato, um atributo daquilo que desejamos", diz o historiador. Ou seja: coleções ajudam a nos livrarmos da impotência de não coordenarmos inteiramente nem mesmo a nossa vida.

Mas não pense que todo colecionador é um sujeito mal-amado, reprimido, solitário. Colecionar quando criança tem lá suas vantagens. Ensina-nos a organizar e controlar as coisas, decidir a vida e a morte de cada objeto. Eis uma boa forma de aprender a tomar decisões e a lidar com o mundo exterior. Colecionar quando criança também funciona como um jeito de se abrir para relações íntimas. "É por isso que muitas crianças param de colecionar na puberdade, quando o sexo passa a ser um novo caminho para se relacionar com o mundo e as coleções são substituídas por pessoas, tratadas com a mesma importância e intimidade", afirma o historiador Blom.

Quem passa da adolescência e continua colecionando pode ter sido fisgado pelo saudosismo. Muitos colecionadores voltam ao hábito depois de adultos para reviver o tempo que jogavam bafo com o vizinho ou iam de mãos dadas com o pai comprar brinquedos. "Virei colecionador por saudades", conta o ítalo-brasileiro Antonio Apuzzo, dono de 6.750 carrinhos de brinquedo, que lhe valeram uma participação no Livro Guinness dos Recordes de 1997 como o maior colecionador de miniaturas do mundo. "Gosto muito de lembrar que ia com meu pai para o centro da cidade comprar os carrinhos", diz ele, que precisa de três cômodos de sua casa para guardar os brinquedos.

Brinquedos? Bem, as peças de Apuzzo não são para brincadeiras. A regra número 1 de um colecionador de respeito é não usar o objeto para seu fim primário. As latas de uma coleção de cervejas, por exemplo, devem estar cheias - embora não haja motivo lógico para isso. Para Blom, esse é um dos lados mais dramáticos do colecionismo: ao tentar recriar mundos passados, o colecionador destrói sua coleção para o mundo. "Tudo o que colecionamos, seja o que for, precisamos matar", afirma. Ele não se refere só a borboletas, besouros ou animais empalhados. O colecionador, no entanto, não enxerga seus badulaques como objetos mortos. Pelo contrário: quando um selo vai para um álbum, passa a ser visto com olhos mais atenciosos e brilhantes. Um defeito no corte ou na impressão, que passaria despercebido por pessoas comuns e carteiros, passa a ser valorizado. Em coleções de objetos produzidos em massa, imperfeições dão à peça uma individualidade e um preço diferenciado. Com sorte, o objeto pode admitir as palavras preferidas dos colecionadores: "único do mundo".